domingo, 6 de outubro de 2019

Verificação experimental da Lei de Ampère


Verificação experimental da Lei de Ampère


Wenderson Rodrigues F. da Silva - UFV, fevereiro de 2018.


Observação: este texto é uma adaptação de um trabalho feito em grupo para a disciplina de Física Experimental 3.
Objetivo: 
Este experimento tem por objetivo estudar a validade da Lei de Ampère na determinação do campo magnético produzido por um fio longo e retilíneo percorrido por uma corrente elétrica.
Introdução:
A descoberta do campo magnético gerado por corrente elétrica foi um dos pilares da ciência moderna e deu margem para a criação da teoria eletromagnética, que relaciona a eletricidade e o magnetismo, antes vistos como fenômenos desconexos. Hans Christian Oersted (1777-1851), químico e físico dinamarquês, notou, em seus experimentos, que a passagem de corrente elétrica por um fio desviava a agulha magnetizada de uma bússola situada em suas proximidades. Posteriormente, André Marie Ampère (1775-1836), matemático e físico francês, desenvolvendo uma teoria para explicar o fenômeno observado por Oersted e descobriu que, na ausência de qualquer imã (agulha magnética), dois fios percorridos por corrente elétrica exerciam, um sobre o outro, uma força que podia ser atrativa ou repulsiva, dependendo do sentido das correntes que percorriam os fios.
Figura 1 - Oersted descobre eletromagnetismo [1].
            O cálculo do campo magnético pode ser obtido com auxílio da Lei de Ampère:
$$ \oint_{c} \vec B\cdot\,\vec {dl}=\mu_0.I.\qquad(1)$$
onde $\vec B$ é o vetor campo magnético, $\vec {dl}$ é um segmento infinitesimal de uma linha fechada  $c$que contorna o fio (chamada circuito amperiano), percorrido por uma corrente elétrica $I$ e $\mu_0$ é a permeabilidade magnética do vácuo, sendo seu valor $\mu_0$= 1,2566×10−6 T m/A (Testa.metro/Ampère). 
A equação (1) pode ser reescrita como:
$$ \oint_{c} \vec B\cdot\,\vec {dl}=\oint_{c} Bdl cos⁡θ=μ_0 I.\qquad(2)$$
Figura 2: Campo magnético $B$ produzido pela corrente elétrica que passa por um fio longo e retilíneo.
Tomando a linha fechada em azul (circuito amperiano) como sendo um círculo de raio $r$, com centro no fio, implica que $dl = rdθ$ e, assim:
 $$ \oint_{c} \vec B\cdot\,\vec {dl}=r\oint_{c} Bcos⁡θdθ=μ_0 I.\qquad(3) $$
Verifica-se experimentalmente que o campo magnético gerado por um fio longo e retilíneo percorrido por uma corrente elétrica é rotacional ao fio, ou seja, ele gira ao seu redor num plano perpendicular à linha do fio. Isso implica que o ângulo entre $\vec dl$ e $\vec B$ é zero e, assim, $cos⁡θ = cos⁡0 = 1$. Portando, para uma dada distância constante r do fio, podemos determinar um valor de $B$ correspondente. Além disso, como a linha fechada é um círculo de centro no fio, por simetria, pode-se ver que a intensidade do campo será a mesma em todos os pontos do círculo. Sendo assim, temos que:
$$ \oint_{c} \vec B\cdot\,\vec {dl}=rB\oint_{c}cos⁡θdθ=2 \pi rB=μ_0 I.\qquad(4)$$
donde:
$$B=\frac{μ_0 I}{2 \pi r},\qquad(5)$$
onde $B$ é o módulo (intensidade) do campo magnético produzido pela corrente elétrica $I$ a uma distância $r$ do fio.
Material e Métodos:
Foram utilizados os seguintes materiais e instrumentos de medidas: uma fonte de tensão DC; fio retilíneo; um medidor de campo magnético (sonda Hall); suportes para o fio e a sonda Hall; um Teslâmetro; uma régua. A seguir serão descritos os procedimentos adotados para cada experimento.

Experimento 1: medida do campo magnético em função da corrente elétrica

Um aparato experimental foi montado como mostram as Figuras 3 e 4.

Figura 3: representação do aparato experimental.

Figura 4: vista aérea do aparato experimental. 
           O medidor de campo magnético foi tarado. r1 é a distância entre a sonda Hall e o fio retilíneo e r2 entre o centro da sonda e do fio, cujos valores são r1 = 1,0 mm e r2= 6,5 mm. Faz-se percorrer pelo fio uma corrente elétrica corrente elétrica, cujo valor é de I = 5,11A, a máxima fornecida pela fonte. Varia-se a corrente aplicada no sistema de 0,50A à 5,00A de 0,50A em 0,50 A. Anota-se o valor do campo magnético para cada corrente aplicada.

                Experimento 2: medida do campo magnético em função da distância ao fio

         Aqui analisou-se como o campo magnético corrente B varia com a distância corrente r ao eixo do fio, como na Figura 3. Para isso foram feitos os seguintes passos: adotou-se o mesmo aparato experimental da parte I. O Teslâmetro foi ligado e tarado. Ajustou-se a corrente elétrica em 5,00A. Mediu-se o campo magnético correspondente a cada distância r, de 0,00 até 10,00 cm, de 1 em 1 cm.

Resultado e discussões:
            Com os valores do experimento 1, obteve-se a tabela (1), cujos valores foram plotados no Gráfico 1 a seguir.
Gráfico 1: Campo magnético B em função da corrente I.

Sabemos que o campo magnético tem uma relação linear com a corrente, como mostra a Equação 4, foi feito uma regressão linear e chegamos aos coeficientes angular a = 0,027 mT/A e o linear b = 0,0026 mT, cuja relação é dada por:
$$B = 0,027 I-0,002.\qquad(6)$$
Com isso, relacionando as Equações (5) e (6), encontramos r = 6,8 mm. Sendo assim, comparando esse valor com os medidos para r1 e r2, temos um erro percentual de 580% e 9,3% respectivamente. Logo, conclui-se experimentalmente que o sensor da sonda se encontra no centro da sonda Hall, e o valor das distâncias ao fio devem ser acrescidas de r1.

Variando a distância da sonda Hall ao fio, mediu-se o campo magnético em função da distância, e preencheu-se a Tabela 2. Nota-se, segundo a Equação 5, que o campo magnético varia com o inverso da distância a fonte do campo. Como forma de verificar tal dependência, fez-se uma terceira coluna na Tabela 2, com os valores dos inversos das distâncias, afim de produzir um gráficode $B$ versus $1/r$ linear.
Sabendo que o sensor da sonda Hall se encontra mais ao centro da sonda, variou-se a distância r em relação ao fio de 0,00 cm à 10,00 cm, com os valores acrescidos de 0,65 cm, o que resultou numa variação de $r$  em de 0,65 cm à 10,65 cm.
De acordo com a Equação (5), nota-se que o campo B varia com o inverso da distância r, como pode-se ver, aparentemente, no gráfico (2) abaixo.
Gráfico 2 – Campo magnético B em função da distância r ao fio.

Para verificar tal dependência, plotou-se o gráfico (3) abaixo e fez-se uma regressão linear e chegou-se à expressão (6) abaixo.
Gráfico 3 – Campo magnético B em função do inverso da distância r ao fio.
$$B=0,096 r^{-1}-0,002.\qquad(7)$$
sendo $r$ a distância do centro da sonda Hall até o fio em centímetros e $B$ o campo magnético medido em militesla.
Ajustando o valor de $μ_0$ para que sua unidade fique em termos de centímetros, o valor da corrente $I$ pode ser determinado, igualando o coeficiente angular da reta da regressão com o da equação (5), como se segue: $\frac{Iμ_0}{2π} = 0,096$ assim $I=4,7 A$. Sabendo que a corrente aplicada foi de 5,00A temos um erro percentual relativo de 6%, o que mostra que os resultados experimentais estão de acordo com a teoria.

Conclusões:
Verificou-se experimentalmente a lei de Ampère. No primeiro experimento, verificou-se a tendência linear de variação do campo com a corrente elétrica que percorria o fio.
Por meio do coeficiente angular igual a 0,027 mT/A, obteve-se o valor das distancias ao sensor da sonda Hall, r1 e r2, resultando em um erro percentual de 9,3% e 580% em relação aos seus valores medidos. Isso mostra experimentalmente que o sensor da sonda Hall deve estar localizado no centro da sonda, com d2 = 7,5 mm (erro menor).
No segundo experimento analisou-se a o campo magnético em função das distâncias do sensor ao fio. Estimou-se a corrente elétrica no fio e obteve-se um valor de 4,7 amperes, com erro percentual de 6% em relação aos 5,0 amperes aplicados.

Bibliografia:

 [1] https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f2/Oersted_discovers_electromagnetism.jpg/800px-Oersted_discovers_electromagnetism.jpg

         Zemansky, Sears e Freedman, Young E. Física III Eletromagnetismo, Ed. Addisson Wesley 2009.
Nussenzveig, H.Moysés, Curso de Física Básica 3 - Eletromagnetismo, Ed. Edgard Blücher LTDA São Paulo, 1997.
Alonso & Finn, Física um Curso Universitário - Campos e Ondas, Ed. Edgard Blücher LTDA São Paulo, 1972. 

terça-feira, 30 de julho de 2019

CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS MODELOS DE ARISTÓTELES E PTOLOMEU SOBRE A NATUREZA DAS COISAS


CONSIDERATIONS ABOUT ARISTOTHEL MODELS AND PTOLOMEUM ON THE NATURE OF THINGS


Wenderson Rodrigues F. da Silva - Viçosa, 08 de junho de 2019.

Há entre os filósofos da Grécia antiga dois expoentes principais, cujos ideais e ensinamentos perduraram por mais de quinze séculos. São eles Aristóteles de Estagira (384 a.C. - 322 a.C.) e Ptolomeu de Alexandria (168 a.C. - 90 a.C.). Suas principais contribuições estão no campo da filosofia natural, como era chamada à época. Aqui será tratado, de forma breve, as principais contribuições desses filósofos para o entendimento da natureza, que deram um passo fundamental para seu progresso e sistematização.
Além de suas contribuições à filosofia, Aristóteles era um naturalista. Desenvolveu modelos acerca dos seres vivos, na descrição e classificação de animais e vegetais, como se vê em seu tratado “Sobre a alma”, no qual estabelece as primeiras formas de classificação dos seres vivos [1]. Ele achava que cada parte de um ser vivo assumia um fim determinado, pois, caso contrário, não seria concebível sua existência [1]. 
Seus estudos do mundo abrangeram também o campo da astronomia, física e mecânica, como chamamos hoje. Na teoria aristotélica do movimento, concebeu a ideia de lugar natural, que o levou a concluir que corpos pesados caem mais rapidamente que os leves. Desenvolveu um modelo para o cosmos, colocando a Terra, estática e esférica, no centro do universo, finito e esférico. Dividiu o mundo em sublunar (corruptível) e supralunar (incorruptível).
Seus ensinamentos contribuíram durante séculos para aqueles curiosos sobre o mundo. No século XIII, com Tomás de Aquino, a igreja católica adotou seus ensinamentos sobre filosofia, cosmologia e física [2]. Só no renascimento, com Galileu Galilei, é que as concepções acerca do mundo iriam mudar, de forma a contribuir para o abandono de grande parte das ideias de Aristóteles sobre a natureza das coisas.
            Enriquecendo a herança sobre os modelos astronômicos deixadas por Hiparco de Nicéia (190 a.C. - 120 a.C.), Cláudio Ptolomeu contribui para um modelo do cosmo que viria a durar por mais de quatorze séculos. Fixou a Terra no centro de um universo esférico e finito, que rotacionava em torno dela por combinações de movimentos uniformes e circulares, de leste para oeste. Impôs aos planetas o epiciclo, cujo centro se movia em torno da Terra sobre a circunferência de outro círculo, o deferente, cujo centro não coincidia com o da Terra. Com os epiciclos, Ptolomeu conseguiu explicar a posição dos planetas e os retrocessos no movimento de Marte. Ele expôs sua obra num compêndio de treze volumes chamado de “grande composição matemática”, que recebeu dos tradutores árabes, mais tarde, o título de “Almagesto”.
          Além do eminente trabalho como astrônomo, Ptolomeu era um grande geógrafo. Desenvolveu uma forma de representação da superfície esférica da Terra sobre uma superfície plana, criando um sistema de projeções. “Os paralelos são círculos com centro no polo norte e os meridianos círculos que convergem no polo” [4]. Descreveu o entorno do mediterrâneo com considerável precisão para a época, lançando mão de fontes como os mapas feitos pelos militares do Império Romano.
      Ambos os modelos desenvolvidos pelos dois eminentes sábios gregos contribuíram para o progresso da ciência como a conhecemos hoje. Aristóteles, por meio de sua classificação e observação empírica da realidade pode construir um sistema de “banco de dados” que contribui significativamente para a transferência e continuidade de seus estudos. Na perspectiva das teorias modernas sobre a ciência, Aristóteles apresenta traços indutivistas, devido a suas generalizações acerca dos experimentos que fazia e também um forte aspecto dedutivista, porém achava que “dada as premissas preconcebidas poderia se chegar a deduções lógicas”[1], mas ainda não foi capaz de associar as premissas a observações e experiencias, como fizera mais tarde Galileu.
       Já Ptolomeu buscou formas de adaptar o modelo de Hiparco à realidade observada, impondo hipóteses “ad hoc” para explicar os movimentos dos planetas que não estavam em concordância com o modelo geocêntrico. Mesmo com essas hipóteses, que hoje sabemos estarem erradas, os trabalhos de Ptolomeu foram amplamente aceitos, principalmente pelo fato de poderem prever acontecimentos celestes, como os eclipses e as posições dos planetas.
        O que chamamos de física, astronomia, biologia, cosmologia, geografia (parte física e cartográfica) entre outras, tem, em grande parte, contribuições de Aristóteles e Ptolomeu. Contribuições que, mesmo hoje sabendo que algumas delas estão equivocadas, foram de suma importância para que outros sábios continuassem a investigar e questionar o comportamento da natureza, e desenvolver tecnologias cada vez mais sofisticadas e, principalmente, para aprimorar o intelecto humano acerca do entendimento do cosmos.
Referências Bibliográficas
·         [1] Enciclopédias Prática Jackson
·         [2] The Scholastics - https://www.hetwebsite.net/het/schools/scholastics.htm. Acesso em 07 de julho de 2019.
·         [3] https://en.wikipedia.org/wiki/Aristotle#/media/File:Aristoteles_Louvre.jpg. Acesso em 07 de julho de 2019.
·         [4] https://en.wikipedia.org/wiki/Geography_(Ptolemy). Acesso em 07 de julho de 2019.



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