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terça-feira, 15 de novembro de 2022

Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil

Redação que desenvolvi no primeiro dia da prova do ENEM 2022, sobre o tema: "Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil".

Wenderson Rodrigues F. da Silva - Viçosa, 13 de novembro de 2022.

O processo de ocupação do território brasileiro se deu de forma desordenada e hierarquizada, onde os mais abastados economicamente ditavam as diretrizes da ocupação. Foi assim no descobrimento do Brasil, com a expulsão e massacre dos povos indígenas, e ainda é até hoje, quando um derramamento de rejeitos de minério inviabiliza a utilização de um rio pelos povos tradicionais que dele fazem uso. Portanto, a valorização dessas comunidades originarias via políticas públicas de reparo e manutenção é fundamental para que possamos garantir uma sociedade justa pra todos.

As comunidades ribeirinhas, os pescadores no litoral, bem como as comunidades quilombolas no Cerrado e os povos originários, dentre outros, mostraram ter total capacidade de viver da terra, com compromisso intimo de preservação ambiental. Tais comunidades, quando incentivadas e orientadas por um órgão competente, poderão contribuir para um desenvolvimento sustentável do planeta, portanto, são fundamentais para frear o aquecimento global.

Os povos tradicionais, além de contribuírem ambientalmente, contribuem com as expressões culturais mais ricas para o país, preservando tradições seculares como os ritos nos terreiros de umbanda e os quilombos preservando tradições afro-brasileiras, dentre muitas outras. Mesmo assim, tais organizações sofrem com agressões e preconceitos diariamente.

A forma de contornar tais problemas se dará através da política. O poder executivo a nível nacional pode criar um “Ministério dos povos tradicionais”, por meio do qual suas secretarias poderão organizar ações socioeconômicas que visem conhecer a atender as demandas de tais comunidades. O censo do IBGE de 2022 irá contribuir para isso. Desse modo, com políticas públicas de promoção do bem estar social, paralelas a ações socioeconômicas e educacionais, se estará incentivando a valorização da cultura nacional e a preservação ambiental, bem como a dignidade desses povos.

 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

"Água Solarizada - uma ferramenta quântica para limpar memórias negativas e auxiliar na melhoria da qualidade de vida", será ???

    

Wenderson Rodrigues Fialho da Silva, Viçosa, 24 de junho de 2021.

        Esse trabalho teve por objetivo analisar conteúdos da internet que utilizam de jargões científicos para apresentar produtos. Por meio de um embasamento científico, verificou-se as informações a respeito da chamada "Água solarizada", fornecidas no canal do Youtube: Beth Russo, como parte da avaliação da disciplina "Introdução à Física Quântica, no PER2 da Universidade Federal de Viçosa.

INFORMAÇÕES GERAIS

 

1. Tema verificado:

  • “Água Solarizada - uma ferramenta quântica para limpar memórias negativas e auxiliar na melhoria da qualidade de vida”.

2. Meio onde o conteúdo foi visto/lido:

  • vídeos.

3. Nome do programa/ veículo/ site/ livro/ rede social /etc onde o conteúdo foi visto/lido:

  • Canal do Youtube: Beth Russo.

4. Links onde podemos encontrar o conteúdo a ser checado:

5. Principais afirmações que foram checadas:

As afirmações abaixo foram retiradas do vídeo supracitado.

  • Quando um frasco de vidro azul contendo água é exposto a luz solar por mais de 1 hora, a água reage com a radiação e libera gases tóxicos como o flúor, deixando a água “totalmente alcalina”, “água pura”.
  • Devido a água ser boa condutora de eletricidade, ela “limpa a toxidade das células”.
  • A autora também diz que a água solarizada é recomendada para quem tem “problemas de saúde” e tem o poder de limpar do subconsciente memorias negativas, fazendo com que o indivíduo tenha melhor qualidade de vida. Ainda relata que conversar com a água, dizendo palavras amorosas antes de bebe-la, faz com que se forme nela cristais que potencializam a transmutação do DNA, o que aumenta sua eficiência (é citado o “Dr. Masaru Emoto”).

Discussões sobre o tema

        Trata-se de um vídeo hospedado na plataforma de vídeos do Youtube feito por uma psicóloga chamada Beth Russo em seu canal com mesmo nome (Figura 1), o qual acumula um total de 950 mil inscritos, tendo o vídeo aqui analisado um total de 203,245 mil visualizações até a data de ‎17‎ de ‎fevereiro‎ de ‎2021, ‏‎as 18h. O vídeo relata um processo de “purificação” ou “preparo quântico” de água para o consumo. Os materiais utilizados pela autora são uma garrafa de vidro semitransparente de cor azul, contendo água em seu interior e, no frasco, ela veda com plástico filme, e faz alguns furos que servirão para “liberar os gases tóxicos presentes na água após a reação com a radiação solar”. Feito isso, após uma hora de exposição a radiação solar, ela estaria pronta para consumo.

Figura 1:  página inicial do canal da autora da dica quântica: água solarizada azul.

        Dentre as afirmações citadas por ela acima mencionadas, analisaremos as duas primeiras, com apoio das ciências básicas, a física, a química e a biologia. A autora apresenta o seu vídeo com sendo uma “Dica quântica”, portanto, aqui faremos o uso dos conceitos necessários da Física Quântica, a fim de mostrar que a base cientifica por trás das afirmações apresentadas pela autora do vídeo são infundadas cientificamente.

          A autora do vídeo afirma que quando um frasco de vidro azul contendo água é exposto a luz solar por mais de 1 hora, a água reage com a radiação e libera gases tóxicos como o flúor, deixando a água “totalmente alcalina”, “água pura”. Analisaremos então os efeitos da radiação solar filtrada por um “filtro” de vidro azul e sua possível interação fotoquímica com a água. A radiação solar que chega até a troposfera, onde estamos localizados, pode ser visualizada no gráfico da Figura 2 abaixo.

Figura 2: espectro da radiação solar no topo da atmosfera, no nível do mar e uma curva associada a emissão de um corpo negro a temperatura de 5250ºC.

        O gráfico acima mostra o espectro da radiação para luz direta no topo da atmosfera terrestre (amarelo) e no nível do mar (vermelho). A luz produzida pelo Sol se assemelha a emissão de um corpo negro a temperatura de 5250 °C (cor cinza), temperatura essa que é aproximadamente a temperatura da superfície solar. A medida que a luz atravessa a atmosfera, parte é absorvida por gases com bandas de absorção específicas (por exemplo, os picos de absorção em bandas em torno de 900, 1100, 1400, 1900 e 2550 nanômetros (nm) acima apresentados) [1]. Portanto, a maior parte da radiação que chega até nos está situada em entre 400 e 900 nanômetros, tendo também bandas de menores intensidades na região do ultravioleta (200-400nm) e no infravermelho próximo (780-2500nm). Após passar por um filtro de vidro semitransparente de cor azul, a radiação solar transmitida pode ser vista no gráfico da Figura 3 abaixo [2]: 

Figura 2: espectro de transmissão de um vidro azul ártico. 

        Assumindo que a transmitância do vidro utilizado pela autora também apresente um espectro semelhante ao do vidro ártico azul, o que é bem provável, chegamos que a radiação que passa para dentro do frasco está concentrada na região visível, principalmente na banda 400-550nm, e na região do infravermelho próximo. Como observado na Figura 1, a água absorve a radiação em picos na região do infravermelho, transmitido fótons compreendidos na região do visível [3]. Como a radiação ultravioleta é fortemente absorvida pelo vidro, onde não ocorre nenhuma (liberação de composto para agua), pode-se concluir que os fótons absorvidos pela molécula de água e acarretando nela possíveis modificações benéficas para o consumo humano são aqueles com comprimento de onda de 900, 1100, 1400, 1900 e 2550 nanômetros (nm), de acordo com a primeira lei da fotoquímica [4].

        Entretanto a radiação nessa região só é capaz de interagir com a molécula causando aquecimento, originados de movimentos de vibração e translação da molécula, não sendo a energia associada aos fótons nesses comprimentos de onda suficientes para causar uma reação fotoquímica. [5]. É pouco provável que ocorra liberação de gases flúor da água dentro da garrafa somente em função de um pequeno aumento de temperatura, que não deve ultrapassar 5 graus em relação a temperatura ambiente.

        A autora cita que devido a água ser boa condutora de eletricidade ela “limpa a toxidade das células”. Primeiro ponto a ser esclarecido é que a água não é boa condutora de eletricidade. A solução salina (sais dissolvidos + ) que é. A autora não especifica o que ela quer dizer com “toxidade da célula”. Ela diz que a água solarizada é recomendada para quem tem “problemas de saúde” e tem o poder de limpar do subconsciente memorias negativas, fazendo com que o indivíduo tenha melhor qualidade de vida. Ainda relata que conversar com a água, dizendo palavras amorosas antes de bebe-la, faz com que se forme nela cristais que potencializam a transmutação do DNA, o que aumenta sua eficiência (é citado o “Dr. Masaru Emoto”), o que [6] expõe como sendo um grande charlatanismo cientifico. Ela não dá explicações quânticas ao longo do vídeo, usando um título equivocado em sua postagem, mas que atrai pessoas e rende financeiramente para a autora, sendo, portanto, uma forma de charlatanismo cientifico.

Conclusão:

        Conclui-se que as afirmações apresentadas pela autora do vídeo em nada estão correlacionadas com os conceitos da física quântica, tampouco com conceitos científicos.

 

Referências bibliográficas:

Tanaka Y., Matsuo K. Non-Thermal Effects of Near-Infrared Irradiation on Melanoma. Breakthroughs in Melanoma Research. 2010.

Cezar J., Dos Santos, P., et al. Optical behavior of translucent glasses and polycarbonates against solar radiation. Matéria (Rio de Janeiro), 23, 3, 2017.

UFPR. Radiação solar incidente. Link: https://fisica.ufpr.br/grimm/aposmeteo/cap2/cap2-7.html. (acessado em 19/02/2021).

Wikipedia. Electromagnetic absorption by water. Link: https://en.wikipedia.org/wiki/Electromagnetic_absorption_by_water. (acessado em 19/02/2021).

Wikipedia. Photochemistry Concept. Link: https://en.wikipedia.org/wiki/Photochemistry#Concept. (acessado em 19/02/2021).

Yamashita. Água não tem memória e gelo não se emociona. Link: https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2019/02/02/agua-nao-tem-memoria-egelo-nao-se-emociona (acessado em 19/02/2021). 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

NATUREZA E FUNCIONAMENTO DOS IMPULSOS ELÉTRICOS NO SISTEMA NERVOSO


Wenderson Rodrigues – Viçosa, 27 de julho de 2015


         Neste artigo sobre neurociência serão apresentados, de forma breve, a estrutura e o funcionamento das principais células do tecido nervoso, as células da glia e os neurônios, principais constituintes do sistema de integração corporal, o sistema nervoso. Na sequência veremos a natureza do impulso nervoso e como os neurônios fazem a transmissão desses impulsos entre eles. Com o aprendizado acerca das características estruturais de um neurônio, podemos entender como o sistema nervoso funciona, e compreender que é por meio dos impulsos elétricos que podemos mandar para os músculos e receber dos órgãos sensitivos estímulos.

ESTRUTURA DO NEURÔNIO

        Os neurônios são células do sistema nervoso responsáveis pela transmissão e recepção de estímulos nervosos. Eles são formados pelo corpo celular, dendritos e axônios.
          O corpo celular é a parte do neurônio onde se encontra o núcleo e as demais organelas. Já os dendritos são prolongamentos ramificados do corpo celular especializados na recepção de estímulos nervosos provenientes de outros neurônios ou de células sensoriais. São semelhantes aos galhos de uma árvore e funcionam como uma antena nos neurônios capitando os estímulos nervosos. E por último, os axônios, uma estrutura exclusiva dos neurônios, especializada na transferência de informações ao longo do sistema nervoso.

           Vejam a figura esquemática de um neurônio:


     O espaçamento entre as bainhas de mielina é chamado de nódulos de Ranvier. Essa” interrupção” facilita um movimento mais ágil do impulso nervoso, que vai ocorrendo em saltos, ganhado com isso, maior velocidade de propagação.

CÉLULAS DA GLIA

       Existe também as células que envolvem protegem e nutrem os neurônios, sendo elas os astrócitos, os oligodendrócitos e as células de Schwan.

      Os astrócitos são as células da glia mais numerosas no encéfalo (parte do sistema nervoso central contida na cavidade do crânio). Essas células são as responsáveis pelo preenchimento do espaço entre os neurônios e da regulação do conteúdo químico no espaço extracelular, evitando por exemplo, que substâncias extracelulares interfiram nas funções neurais.

        Existem também as células chamadas de oligodendrócitos, que formam a membrana que isola o axônio (prolongamento principal do neurônio), chamada de banha de mielina. Os oligodendrócitos são encontrados no sistema nervoso central (encéfalo e medula espinhal) são as células da glia responsáveis pela formação, e manutenção das bainhas de mielina dos axônios.

     Já no sistema nervoso periférico, atuam as células de Schwan com funções semelhantes às dos oligodendrócitos. Essas são responsáveis por produz a mielina que envolve os axônios dos neurônios do sistema nervoso periférico, que sobrepostos formam o nervo, uma estrutura de forma semelhante a um cabo, constituído de axônios e dendritos, que levam e trazem as mensagens de todas as partes do corpo para o sistema nervoso central. Essa proteção da bainha de mielina isola eletricamente os nervos e, assim, permite a propagação rápida dos impulsos nervosos.


NATUREZA DO IMPULSO NERVOSO

       Em um neurônio em repouso, os fluxos iônicos para dentro e para fora da célula se contrabalançam, de modo que a separação de cargas entre as duas faces da membrana permanece constante e o potencial elétrico da membrana conserva seu valor de repouso. A membrana da célula atua como um capacitor e pode controlar a passagem dos íons (Na+) e (K+) por meio da abertura ou fechamento dos seus poros ou condutos.


          Quando um neurônio sofre um estimulo externo, como por exemplo, a picada de uma abelha ou até mesmo o ato de ler este artigo, canais iônicos nas membranas das células possibilitam a passagem dos íons (k+) e (Na+), o que causa a imersão ou emersão desses íons na membrana, desestabilizando o equilíbrio elétrico entre o interior e o exterior da célula. Quando isso acontece, por um processo denominado despolarização, ocorre alterações no potencial elétrico da célula.

        Esse influxo de íons através dos canais iônicos da membrana faz com que seja gerado um potencial de ação, que conduz as informações do estimulo e irrita a porção seguinte da membrana instantaneamente, forçando-a a repetir o processo.


           As alterações elétricas na membrana plasmática do neurônio durante impulso nervoso ocorre devido a mudanças temporárias em sua permeabilidade aos íons Sódio (Na+) e aos íons Potássio (K+). Quando uma área despolarizada está se repolarizando, a outra imediatamente a sua frente está se despolarizando, tudo isso devido a diferença da concentração iônica entro o interior e o exterior da membrana celular. Essa condição cria uma diferença de potencial entre as duas faces da membrana chegando a medir cerca de -70mV.

          Assim, o potencial de ação se propaga como uma corrente elétrica até o próximo neurônio, passando as informações do impulso nervoso de um para o outro, em um processo chamado sinapse.

SINAPSES

          São zonas de contato especializadas na qual um neurônio se comunica com o outro. Ocorre quando a região próxima da extremidade do axônio se junta com um neurônio vizinho. Esse pareamento por onde se dá a transmissão do impulso nervoso é a sinapse.

       Existe dois tipos de sinapse, a química e a elétrica. A sinapse química caracteriza-se pela ausência de contato físico entre os neurônios. Para que os estímulos nervosos se propaguem, os terminais sinápticos nos axônios dilatam-se e são liberados substâncias denominadas neurotransmissores que ficam responsáveis por propagar o estímulo. Na membrana pré-sináptica, a informação que viaja na forma de impulsos elétricos ao longo do axônio é convertida, no terminal axonal, em sinal químico, que por sua vez, cruza a fenda sináptica. Após liberado esses mediadores químicos, eles se ligam a membrana da célula pós-sináptica, que se for um neurônio, são convertidos novamente, gerando um novo impulso elétrico.


         Já na sinapse elétrica, as membranas das células comunicantes se unem, permitindo que o potencial de ação passe diretamente, sem mediadores químicos, de uma célula à outra.

SINAPSE NERVO-MÚSCULO

       Quando estamos nos movimentando a transmissão dos impulsos elétricos provenientes do cérebro para nossos músculos se dá através da sinapse nervo-músculo. Os nervos fazem parte do sistema nervoso periférico e são responsáveis pela transmissão do impulso elétrico nervoso. Esses são responsáveis em levar as mensagens de todas as partes do corpo para o sistema nervoso central e trazem de volta para a medula espinal e para as diversas partes do corpo.


            O axônio do neurônio motor inerva a placa motora, uma região da membrana do músculo.  A partir daí, é liberado neurotransmissores que possibilitam a troca de informação entre o nervo e o músculo, possibilitando-o responder ao estimulo enviado pelo cérebro.

        Todos os movimentos, percepções, ações, emoções e tantas outras coisas que regem o funcionamento do nosso corpo e da nossa vida têm com princípio o que foi dito acima, contudo, o assunto é bem mais complexo e detalhado. Esse artigo sobre neurociência é uma forma de divulgação, principalmente para leigos no assunto, que queiram conhecer um pouco sobre o funcionamento do nosso sistema nervoso.






quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A Carta do Cacique Seattle, em 1885


Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

    "O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

terça-feira, 1 de julho de 2014

Carta de Jean-Paul Sartre recusando o Prêmio Nobel de Literatura


Lamento vivamente que este assunto tenha tomado a aparência de um escândalo; um prêmio foi concedido e alguém o recusa. Isto se deve ao fato de que não fui informado devidamente a tempo do que se preparava. Li no “Le Figaro Litteraire”, de 15 do corrente mês, sob a assinatura do correspondente sueco deste jornal, que a maioria na Academia Sueca era a meu favor, mas não havia sido ainda definitivamente fixada, pelo que bastava escrever uma carta à academia, o que fiz no dia seguinte, para pôr um ponto final ao assunto e não mais se falasse dele.
Eu ignorava, então, que o Prêmio Nobel é outorgado sem que se peça a opinião ao interessado e pensei que ainda era tempo de impedi-lo. Mas compreendo muito bem que quando a Academia Sueca faz sua escolha, já não pode voltar atrás. As razões pelas quais renuncio ao prêmio não se referem nem à Academia Sueca, nem ao Prêmio Nobel em si, como já expliquei em minha carta à Academia.
Nela invoquei duas espécies de razões; razões pessoais e razões objetivas. As razões pessoais são as seguintes: minha negativa não é um ato improvisado. Sempre recusei as distinções oficiais. Quando, depois da guerra, em 1945, me propuseram a Legião de Honra, recusei-a, apesar de possuir amigos no Governo. Igualmente nunca aceitei ingressar no Colégio de França como sugeriram alguns de meus amigos. Esta atitude é baseada em minha concepção do trabalho do escritor. Um escritor que assume posições políticas, sociais ou literárias somente deve agir com meios que lhes são próprios, isto é, com a palavra escrita. Todas as distinções que possa receber expõem seus leitores a uma pressão que não considero desejável. Não é a mesma coisa se eu assino Jean-Paul Sartre que se eu assino Jean-Paul Sartre, Prêmio Nobel. O escritor que aceita uma distinção deste gênero compromete, também, a associação ou instituição que a outorga: minhas simpatias pelos guerrilheiros venezuelanos somente a mim comprometem, mas se o Prêmio Nobel Jean-Paul Sartre toma partido pela resistência na Venezuela, arrasta consigo todo o Prêmio Nobel como instituição. Nenhum escritor deve deixar-se transformar em Instituição, mesmo que isto se verifique pela mais honrosa forma, como no caso presente. Esta atitude é inteiramente pessoal e, evidentemente, não representa nenhuma crítica contra aqueles que já foram premiados.
Tenho muita estima e admiração por muitos dos laureados que conheci pessoalmente. Mas minhas razões objetivas são as seguintes: – O único combate atualmente possível no campo da cultura é o da existência pacífica das duas culturas, a do Leste e a do Oeste. Não quero dizer com isso que seja necessário que se deem abraços. Sei perfeitamente que o confronto entre estas duas culturas deve, por necessidade, adotar a forma de um conflito, conflito que deve ter lugar entre homens e entre culturas, mas sem intervenção de instituições. Sinto pessoal e profundamente as contradições entre as duas culturas: sou feito dessas contradições. Minhas simpatias vão inegavelmente, para o socialismo e para o que se chama o Bloco do Leste, mas vivi e me eduquei numa família burguesa e numa cultura burguesa. Isto me permite colaborar com todos aqueles que querem aproximar ambas as culturas. Espero, naturalmente que a melhor ganhe, isto é, o socialismo.
Por isso é que não posso aceitar nenhuma distinção concedida pelas altas instâncias culturais, tanto de Leste como do Oeste, mesmo que admita sua existência. Embora todas as minhas simpatias vão para o campo socialista, seria impossível para mim aceitar, por exemplo, o Prêmio Lênin, se alguém quisesse me conceder, o que não se dá. Sei muito bem que o Prêmio Nobel, por si mesmo, não é um prêmio literário do campo ocidental, mas se transforma no que se faz dele e podem suceder coisas que os membros da Academia Sueca não podem prever. Por isto que, na situação atual, o Prêmio Nobel se apresenta objetivamente como uma distinção reservada aos escritores do Oeste ou aos rebeldes do Leste. Não se premiou Neruda, que é um dos maiores escritores americanos. Nunca se pensou seriamente em Aragon, que bem o merece. É lamentável que se tenha concedido o prêmio a Pasternak e não a Cholokhov e que a única obra soviética coroada seja uma editada no estrangeiro, proibida em seu país. Poder-se-ia ter estabelecido um equilíbrio mediante um gesto análogo no outro sentido.
Durante a guerra da Argélia, quando assinamos o Manifesto dos 111 eu teria aceito o prêmio com reconhecimento, porque ele não teria honrado somente a mim, mas à liberdade pela qual lutávamos. Mas isso não aconteceu e é somente no fim dos combates que se entregam os prêmios. Na motivação da Academia Sueca se fala de liberdade: é uma palavra que se presta a numerosas interpretações. No ocidente, se fala de liberdade num sentido geral. Entendo a liberdade de uma forma mais concreta, que consiste no direito de ter mais de um par de sapatos e de comer pão menos duro. Parece-me menos perigoso declinar do prêmio do que aceitá-lo. Se o aceitasse, me prestaria ao que se pode chamar de uma ‘recuperação objetiva’. Afirma o artigo do ‘Le Figaro Litteraire’ que ‘não se teria em conta meu passado político discutido’. Sei que este artigo não exprime a opinião da Academia Sueca, mas ele mostra claramente em que sentido seria interpretada minha aceitação em certos meios de direita.
Considero este ‘passado político discutido’ como ainda válido, mesmo se disposto a reconhecer certos erros passados perante meus camaradas. Não quero dizer que o Prêmio Nobel seja um prêmio ‘burguês’, mas esta seria a interpretação burguesa que dariam inevitavelmente os meios que conhecemos. Finalmente, resta a questão do dinheiro. É verdadeiramente grave que a Academia coloque sobre os ombros do laureado, além da homenagem, uma soma enorme. Este problema me atormentou. Ou bem se aceita o prêmio e com a soma recebida se apoiam movimentos ou organizações que se consideram importantes – de minha parte seria o Comité Apartheit de Londres – ou bem se recusa o prêmio em vista de virtude de princípios gerais, e se priva este movimento ao apoio que necessita. Renuncio, evidentemente, às 250.000 coroas porque não quero ser institucionalizado nem ao Leste nem ao Oeste. Não se pode pedir que se renuncie, por 250.000 coroas, aos princípios que não são unicamente nossos, mas compartilhados por todos os nossos camaradas. Foi isto que tornou tão penoso para mim tanto a atribuição do prêmio como a recusa que manifestei. Quero terminar esta declaração com uma mensagem de simpatia ao povo sueco.
                             Traduzida e publicada pelo jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 1964.

sábado, 14 de junho de 2014

CARTA DE ABRAHAN LINCOLN AO PROFESSOR DO SEU FILHO



Caro professor,
Ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros.
Mas, por favor, diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado.
Ensine-lhe, por favor, que para cada inimigo haverá também um amigo.
Ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada.
Ensine-o a perder, mas também, a saber, gozar da vitória.
Afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso.
Faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa.
Ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.
Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros.
Ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho.
Ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.
Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço.
Deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou pedindo muito, mas veja o que pode fazer, caro professor.


                                                                                          Abraham Lincoln, 1830

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